Karolina Koval, Universidade Fudan (China), Instituto de Etnologia e Antropologia da Academia Russa de Ciências-especialmente para InfoBRICS
- Em 9 de maio de 2025, realizou-se em Moscovo um desfile em homenagem ao 80.º aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica. Por ocasião, o presidente Lula da Silva visitou a Rússia. Marcela, por favor, diga-nos o que a mídia brasileira está a escrever sobre a visita de Lula da Silva a Moscovo. Quais são as impressões do presidente brasileiro sobre o desfile e sobre Moscovo em geral?
A mídia brasileira, altamente financiada pelas grandes elites do país, divulgam uma imagem um tanto quanto reacionária sobre a ida do então presidente da república. Títulos tais como “Encontro de Ditadores” e demais nomeações ridículas, foram amplamente utilizadas para afetar, de alguma forma, a governança do Sr. Lula da Silva. Isso se dá pelo fato de que o Brasil se encontra fortemente dividida entre os apoiadores da extrema direita, que possui uma forte influência no jornalismo brasileiro, e os apoioadores da esquerda, que por sua vez não possuem grande destaques nas mídias, a não ser por fontes de informações alternativas em websites e aplicativos de comunicação pela internet.
O seu maior opositor no momento, Jair Messias Bolsonaro, Ex presidente que se promoveu fazendo ataques diretos e agressivos aos dois últimos mandatos de Lula, é uma das principais figuras que propaga uma imagem negativa da Lula na sua ida à Rússia, e o faz através de robôs que divulgam mensagens pelos aplicativos de comunicação, principalmente pelo Whatsapp. Mas o mesmo o faria se ele fosse à China, à Africa do Sul, à India, e etc.
Em sua maioria, os opositores à Lula, e leia-se seguidores de Bolsonaro, são homens de meia idade, classe média, latifundiários ou empresários que sempre foram beneficiados pelo governo brasileiro, desde sua independência de Portugal, em 1822. Que por sua vez possuem capital financeiro o suficiente para comprar, ou manipular a opinião das classes mais baixas, que possuem uma baixícissa formação educacional, tendo em vista a calamidade que é o ensino básico no Brasil.
Ainda há os apoioadores de Lula, que viram a sua ida a Rússia como uma relação emergente que vem crescendo cada vez mais para fazer da economia brasileira cada vez mais independente do dólar e do mercado estadunidense. Este por sua vez sempre fez relações comerciais unilaterais, beneficiando mais a sí, do que ao mercado brasileiro. O exemplo mais recente que podemos perceber foi durante o governo de Jair Messias Bolsonaro, de isenção de visto para estadunidenses interessados a viajarem para o Brasil, mas a imposição de visto para brasileiros interessados a irem ao EUA. E isso é apenas um dos exemplos desta caótica relação.
Por fim, as opiniões se dividem, mas a extrema direita possui um aparato muito bem construído para divulgar a ida de Lula, e a qualquer outro país que seja, de forma negativa e falaciosa. Já as fontes de informações mais moderadas, enfatizam sobre a busca do Governo Federal, de estreitar as relações econômicas e diplomáticas com o multilateralismo e de ganho mútuo.
- Quais outros políticos ou personalidades brasileiras visitaram a Rússia nestes dias?
Além do Presidente Lula, que participou do desfile militar e outras cerimônias, outras figuras brasileiras também estiveram presentes em Moscou para celebrar o 80° Dia da Vitória, incluindo o presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre, e vários ministros de estado segundo o G1. A viagem de Lula foi uma ocasião para reafirmar o compromisso do Brasil com o multilateralismo e a busca por parcerias comerciais.
Em sua comitiva para a celebração dos 80 anos do dia da vitória, também estavam presentes:
- Davi Alcolumbre: Presidente do Congresso Nacional, representando o parlamento brasileiro nas celebrações.
- Mauro Vieira: Ministro das Relações Exteriores.
- Alexandre Vieira: Ministro de Minas e Energia.
- Luciana Santos: Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação.
- Celso Amorim: Ex-ministro e assessor-chefe da assessoria especial.
- Janja da Silva: Primeira-Dama do Brasil.
- Elmar Nascimento: Deputado Federal e vice-presidente da Câmara dos Deputados.
- A última visita de Lula da Silva a Moscovo foi em 2010. Como as relações entre a Rússia e o Brasil mudaram desde então?
Desde a última visita de Lula a Moscou em 2010, as relações entre Brasil e Rússia evoluíram de uma parceria diplomática estável para uma cooperação estratégica multifacetada. Os dois países intensificaram seus laços em diversas frentes: comércio, defesa, tecnologia e diplomacia global. No plano econômico, o comércio bilateral cresceu significativamente, com destaque para a exportação de fertilizantes russos e carnes brasileiras. O valor da troca comercial passou de cerca de US$ 6 bilhões (em 2012) para quase US$ 10 bilhões (em 2022), consolidando a Rússia como um dos principais fornecedores de insumos agrícolas para o Brasil. Na área da defesa e tecnologia, houve acordos importantes, como a compra de helicópteros russos Mi-35 e colaborações em projetos espaciais e de energia nuclear. Recentemente, foi anunciado um projeto conjunto sobre pequenos reatores nucleares.
Politicamente, o Brasil manteve uma posição de neutralidade em relação ao conflito na Ucrânia, recusando-se a enviar armas ou aderir a sanções contra a Rússia. Lula propôs o Brasil como mediador e defende uma diplomacia multilateral voltada à paz, posicionando o país como um ator independente no cenário internacional. Em 2025, Lula retornou a Moscou, participando do desfile do Dia da Vitória e reafirmando a disposição brasileira de aprofundar os laços com a Rússia. O encontro simbolizou a retomada de relações de alto nível e reforçou o papel do Brasil como interlocutor global, equilibrando-se entre o Ocidente e os países emergentes do BRICS.
- Durante as negociações, foram discutidas áreas como a militar, espacial, científica, económica e energética. Chegou-se a algum acordo?
Durante as recentes negociações entre Brasil e Rússia, foram discutidas diversas áreas estratégicas e, ao contrário de encontros meramente protocolares, houve avanços concretos com a assinatura de acordos bilaterais em múltiplos setores. No campo militar, o Brasil e a Rússia retomaram o formato de consultas “2+2”, envolvendo os ministérios da Defesa e das Relações Exteriores de ambos os países. Também foi acertada a participação de militares brasileiros em treinamentos com sistemas de defesa aérea em solo russo, fortalecendo a cooperação técnico-operacional entre as forças armadas. Na área espacial, foram firmados acordos para o uso do sistema de navegação por satélite russo GLONASS em território brasileiro, com estações de calibração em Santa Maria, Brasília e Pernambuco. Além disso, ambos os países avançaram em iniciativas de monitoramento de detritos espaciais e desenvolverão projetos conjuntos no âmbito do BRICS, como constelações de satélites para sensoriamento remoto. No setor científico e tecnológico, os dois países assinaram memorandos de entendimento que promovem pesquisas conjuntas em áreas como física de partículas, clima, ciência polar, biotecnologia e inovação. Está prevista a troca de pesquisadores, apoio a startups e colaboração com centros como o JINR (Instituto Conjunto de Pesquisas Nucleares). Em termos econômicos e energéticos, os acordos envolvem a exploração e o refino conjunto de hidrocarbonetos, além de parcerias na infraestrutura de gás natural e fertilizantes — um setor essencial para a agricultura brasileira. Outro destaque foi o avanço em projetos de exploração de minerais estratégicos como lítio, cobalto, urânio e terras-raras.
Por fim, no campo da energia nuclear e da transição energética, foi acertada a colaboração com a empresa russa Rosatom na implantação de pequenos reatores nucleares no Brasil, além de possíveis contribuições para projetos como Angra 3 e fornecimento de combustível nuclear para submarinos. Também houve acordo para o desenvolvimento de SAF (combustível sustentável de aviação), com base em resíduos agrícolas e industriais.
- A questão da multilateralidade na Brasil está na agenda? Quais são as perspectivas futuras da cooperação entre a Rússia e a Brasil no âmbito do BRICS?
Sim, a multilateralidade está no centro da agenda brasileira, especialmente sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que tem reafirmado o compromisso do Brasil com uma ordem internacional mais equilibrada, multipolar e inclusiva. Nesse contexto, o BRICS é visto como uma plataforma estratégica para promover esse tipo de cooperação. O Brasil tem buscado se posicionar como um ator diplomático independente, defensor do diálogo, da paz e de soluções políticas para os conflitos internacionais. A recusa brasileira em aderir a sanções unilaterais e o apelo por negociações no caso da guerra na Ucrânia são reflexo direto dessa postura. Nesse sentido, a multilateralidade se articula como um instrumento para fortalecer o papel de países em desenvolvimento nos fóruns globais, evitando a centralização de poder nas grandes potências ocidentais. A multilateralidade, para o Brasil, é uma estratégia para reforçar sua autonomia internacional e construir um mundo mais justo. No BRICS, a parceria com a Rússia deve ganhar fôlego, com base em interesses comuns em economia, tecnologia, segurança e na busca por uma nova governança global. As perspectivas são de continuidade e aprofundamento, especialmente com o Brasil assumindo posições de liderança e propondo soluções conciliatórias no cenário internacional.
- Quais são as perspectivas futuras da cooperação entre a Rússia e a Brasil no âmbito do BRICS?
As perspectivas futuras da cooperação entre a Rússia e o Brasil no BRICS são amplas e estratégicas. Ambos os países compartilham interesses em construir uma ordem mundial multipolar, menos dependente das potências ocidentais e com maior protagonismo para o Sul Global. Abaixo estão os principais eixos dessa cooperação futura:
A. Reforço da cooperação econômica e comercial
Brasil e Rússia buscam expandir suas trocas comerciais e criar mecanismos para realizar transações em moedas locais, reduzindo a dependência do dólar. O fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), com sede em Xangai, também é prioridade, especialmente para financiar projetos de infraestrutura e sustentabilidade.
B. Soberania alimentar e energética
O intercâmbio de fertilizantes, grãos, tecnologias agrícolas e energias estratégicas (como gás e nuclear) seguirá como uma base sólida da parceria. Há interesse mútuo em desenvolver cadeias de produção independentes e sistemas de abastecimento seguros.
C. Avanço em ciência, tecnologia e inovação
Projetos conjuntos em áreas como inteligência artificial, segurança cibernética, biotecnologia, espaço e tecnologias verdes devem ser fortalecidos. A cooperação espacial — já existente — tende a se expandir com novos satélites e sistemas de comunicação.
D. Saúde global e desenvolvimento sustentável
O BRICS deve aprofundar a cooperação em áreas como pesquisa médica, produção de vacinas e biotecnologia. A experiência da pandemia mostrou o valor de uma resposta coordenada fora dos blocos tradicionais do Ocidente.
E. Reforma da governança global
Brasil e Rússia mantêm posições próximas na defesa da reforma do Conselho de Segurança da ONU e de instituições como o FMI e o Banco Mundial. O BRICS se posiciona como alternativa para dar voz aos países emergentes.
F. Expansão do BRICS e construção de uma nova ordem internacional
Com a entrada de novos membros (como Irã, Egito e Emirados Árabes Unidos), o grupo se fortalece geopoliticamente. A expectativa é que Brasil e Rússia atuem de forma coordenada para integrar esses novos parceiros e consolidar o BRICS como uma força global mais coesa.
A cooperação entre Brasil e Rússia dentro do BRICS tende a crescer em profundidade e abrangência. Ambos veem o grupo como uma plataforma vital para ampliar sua influência global, promover desenvolvimento sustentável, inovação tecnológica e defender os interesses dos países em desenvolvimento frente às grandes potências.
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