Dr. Nilanjan Ghosh
A transformação acelerada da ordem mundial está abrindo espaço para que o BRICS desempenhe um papel que vai muito além da representação política das economias emergentes. Em meio à fragmentação geopolítica, às rupturas nas cadeias globais de suprimentos e ao agravamento dos riscos climáticos, o grupo tem condições de contribuir para uma redefinição da própria economia do desenvolvimento.
A análise é do Dr. Nilanjan Ghosh, chefe de Estudos de Desenvolvimento da Observer Research Foundation (ORF) e responsável executivo e operacional pelo ORF Kolkata Centre. Segundo Ghosh, as limitações da atual arquitetura multilateral tornam cada vez mais necessária a construção de mecanismos capazes de responder às necessidades específicas dos países em desenvolvimento.
Nesse cenário, a expansão do BRICS deve ser analisada não apenas pelo crescimento do número de integrantes, mas principalmente pela capacidade do bloco de ampliar a autonomia do Sul Global e influenciar concretamente as prioridades, os mecanismos de financiamento e os critérios utilizados para avaliar o desenvolvimento.
Da representação à capacidade de agir
Uma das mudanças centrais em curso é a transformação da posição ocupada pelos países em desenvolvimento na governança internacional. Essas nações já não buscam simplesmente uma vaga nas instituições globais. Querem participar da definição das agendas e, sobretudo, influenciar seus resultados.
O BRICS emerge, assim, como uma plataforma potencial de maior autonomia para o Sul Global. A expansão do grupo fortalece sua representatividade, mas esse avanço institucional precisa ser convertido em capacidade efetiva de formular e executar estratégias de desenvolvimento.
O desafio é especialmente relevante para a África, continente que concentra algumas das maiores necessidades mundiais de infraestrutura, financiamento climático e desenvolvimento humano, mas continua enfrentando dificuldades de acesso a recursos em condições compatíveis com suas necessidades.
A questão central deixa de ser, portanto, quantos países estão representados nas estruturas internacionais e passa a ser quanto poder efetivo possuem para determinar seus próprios caminhos de desenvolvimento.
Resiliência climática exige novas formas de financiamento
Essa mudança também passa pela maneira como os investimentos são avaliados.
Projetos de adaptação climática e infraestrutura resiliente frequentemente produzem benefícios econômicos e sociais que não aparecem adequadamente nos modelos tradicionais de retorno sobre investimento.
Uma obra capaz de proteger uma comunidade contra enchentes, por exemplo, pode evitar perdas humanas, econômicas e ambientais durante décadas. Parte significativa desse valor, entretanto, não aparece imediatamente como receita financeira.
O desafio para instituições de financiamento do desenvolvimento é reconhecer economicamente esses benefícios.
Nesse contexto, o BRICS pode ajudar a construir modelos capazes de incorporar a resiliência às decisões de investimento, permitindo que projetos estratégicos sejam avaliados não apenas pela receita financeira diretamente gerada, mas também pelos prejuízos evitados e pelos benefícios sociais, ambientais e econômicos proporcionados ao longo do tempo.
Conectividade como multiplicador de riqueza
Outro elemento central dessa nova economia do desenvolvimento é a conectividade.
Infraestrutura não deve ser compreendida apenas como um conjunto isolado de rodovias, ferrovias, portos, redes elétricas ou sistemas digitais. O valor econômico e social desses ativos aumenta quando eles são integrados.
A conexão entre infraestrutura física, redes digitais, instituições, comunidades e ativos culturais pode funcionar como multiplicador da riqueza nacional.
Uma ferrovia conectada a portos, centros industriais, sistemas digitais, universidades e comunidades locais, por exemplo, possui um impacto potencialmente muito maior do que a soma individual de cada um desses ativos.
Essa abordagem desloca o debate do simples crescimento do Produto Interno Bruto para uma visão mais ampla de geração de riqueza e bem-estar intergeracional.
O papel do “capital de engenhosidade”
Ghosh também chama atenção para uma dimensão frequentemente subestimada pelas teorias tradicionais do desenvolvimento: o “capital de engenhosidade” (Ingenuity Capital).
Além do capital físico, natural, humano e social, o desenvolvimento depende cada vez mais da capacidade das sociedades de produzir ideias, desenvolver tecnologias, criar soluções institucionais e encontrar novas formas de utilizar os recursos disponíveis.
Esse capital inclui inovação científica e tecnológica, conhecimento local, novos modelos de governança e soluções desenvolvidas para responder a problemas específicos das sociedades.
A capacidade de inovar pode, portanto, ser considerada um ativo estratégico tão importante quanto infraestrutura, recursos naturais ou capital financeiro.
BRICS como incubadora global de inovação
O BRICS poderia assumir papel relevante justamente na transformação dessas experiências nacionais em soluções de alcance internacional.
Em vez de funcionar apenas como espaço de coordenação diplomática ou financeira, o grupo pode atuar como uma incubadora e aceleradora de inovação do Sul Global, conectando universidades, centros de pesquisa, empresas, governos e instituições financeiras.
A cooperação em pesquisa, transferência tecnológica, formação de capacidades e fortalecimento institucional permitiria transformar soluções desenvolvidas localmente em bens públicos globais.
Países do Sul Global frequentemente enfrentam desafios semelhantes relacionados à urbanização, segurança alimentar, transição energética, mudanças climáticas, infraestrutura, saúde pública e transformação digital. Soluções criadas em um integrante do BRICS poderiam ser adaptadas e reproduzidas em outros países.
Essa dinâmica permitiria construir um ecossistema próprio de inovação e desenvolvimento, reduzindo a dependência de modelos produzidos exclusivamente pelas economias avançadas.
Novas métricas para uma nova economia do desenvolvimento
Para que essa transformação seja efetiva, porém, também será necessário mudar a maneira como o progresso econômico é medido.
Indicadores tradicionais, embora continuem relevantes, não conseguem capturar integralmente fatores como resiliência climática, conectividade, capacidade tecnológica, inovação institucional, qualidade ambiental e bem-estar social.
O BRICS pode contribuir para a formulação de novas métricas capazes de incorporar essas dimensões às decisões econômicas e financeiras.
Essa mudança teria consequências importantes para bancos de desenvolvimento, governos e investidores, porque permitiria avaliar projetos a partir de seus impactos econômicos, sociais e ambientais de longo prazo.
Nesse sentido, o sucesso da expansão do BRICS não dependerá apenas de sua dimensão demográfica, econômica ou territorial.
A questão decisiva será sua capacidade de transformar a maior representação do Sul Global em agência de desenvolvimento — criando instrumentos financeiros, tecnologias, instituições e métricas capazes de responder às necessidades de uma economia mundial marcada simultaneamente pela crise climática, pela fragmentação geopolítica e pela transformação tecnológica.
Mais do que ampliar a presença dos países em desenvolvimento nas estruturas internacionais, o desafio colocado ao BRICS é ajudar a redefinir as próprias regras pelas quais o desenvolvimento é financiado, promovido e medido.
Observer Research Foundation