Por Ivanildo di Deus Souto
Ao final e imediatamente no período pós Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos da América instrumentalizarem-se, contígua e ostensivamente, para consolidarem sua supremacia econômica, industrial, bélico-militar e tecnológica e tornarem-se a nação mais poderosa da Terra, prosseguindo, assim, à afirmação do seu projeto imperialista-neocolonialista mundo afora. Continuaram, então, acirradamente, o processo de intervenção geopolítica nos países subdesenvolvidos da América Latina, da África e da Ásia para conquistarem seus territórios, manterem governos titerianos e dominarem os seus povos, usurpando-lhes os seus recursos naturais estratégicos, a sua identidade político-sócio-cultural e empobrecendo-os ainda mais para miseralizá-los.
Elenque-se uma série de ações tomadas à concretização do escopo imperialista estadunidense no período. 1944: realização da Conferência de Breton Woods, cujo “objetivo urgente era reconstruir o capitalismo mundial a partir de um sistema de regras que regulasse a política econômica internacional.” (...) “Esse sistema liberal, que primava pelo mercado e pelo livre comércio e capitais, foi a base para o maior ciclo da história de crescimento do capitalismo. Com sua moeda regendo o mundo e supremacia no setores industrial, tecnológico e militar, um país foi o grande vencedor: os Estados Unidos da América”. Da conferência resultaram a criação do BIRD (Banco Interamericano de Desenvolvimento ou Banco Mundial) e a criação do FMI (Fundo Monetário Internacional), além de terem sidos delineados, explicitamente, parâmetros institucionalizadores da “Guerra Fria” contra a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). 1945: as cláusulas estabelecidas nos “Acordos de Paz”, com o fim da guerra, privilegiaram principalmente os interesses estadunidenses. 1948: oficialização da criação da Organização das Nações Unidas (ONU), instituição incumbida à construção da paz e ao equilíbrio entre as nações, mas usada e desrespeitada pelo imperialismo, e criação do Estado de Israel em solo palestino, desterritorializando paulatinamente esse povo e expulsando-o da sua Terra Mãe; 1949: criação da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), liga militar formada por vários países a serviço do imperialismo; além, as inúmeras intervenções geopolíticas militares.
Em 1949, além do Bloco Socialista já existente, liderado pela URSS, um fato histórico preocuparia ainda mais os governantes estadunidenses ante o seu ganancioso e predatório macro projeto imperialista: a consolidação da Revolução Chinesa liderada por Mao Tsé Tung. Com a Revolução, o Partido Comunista Chinês passa a ter o controle do novo governo e implementa uma série de medidas à afirmação da sua soberania, do desenvolvimento nacional e pelo auto empoderamento sócio-econômico e cultural do seu povo, o que historicamente aconteceu. E, no início do século XXI, em pouco mais de meio século de Revolução Socialista, a China assombra a maior potência econômica mundial e, junto com outros países emergentes economicamente no cenário internacional (Brasil, Rússia e Índia), oficializam, em 2009, a criação do BRIC, outro fator determinante às mudanças de estratégias intervencionistas-geopolíticas pelo imperialismo estadunidense.
Os BRICS tiveram o seu processo gestatório iniciado em 2001; em 2006 os acordos progrediram exitosamente e, em 2009, foi consolidado. Voltado à cooperação econômico e militar dos países membros, é resultado de intensas relações diplomáticas entre três grandes estadistas de então: Hu Jintao, Vladimir Putin e Luís Inácio Lula da Silva, respectivamente, presidentes chinês, russo e brasileiro, mais os premieres indianos no período da formação do grupo. (A África do Sul ingressou no “clube político” somente em 2011, daí o acréscimo do “S” à sigla). Essa “aliança intercontinental” fez revelar o estágio de franco desenvolvimento econômico porque passava o grupo e mostrou-se como importante fator à sua ascensão no mercado internacional. Fato: em 2009, ano da sua criação, o PIB do grupo representava 14% do montante do PIB global e, em 2011, auge da crise internacional, já contabilizando o PIB sul-africano, subiu para 18%. Assim, naquele período, o PIB dos BRICS superou os PIBs dos EUA e da União Europeia.
Então, no primeiro decênio deste século, é como BRICS e com Hu Jintao, Vladimir Putin e Lula da Silva, que a China (3ª maior economia do mundo), a Rússia (8ª) e Brasil (9ª) começam a afrontar o imperialismo estadunidense quando abocanham maior participação no mercado e passam a ter maior influência geopolítica mundial. Com essa condição -e como consequência óbvia, os Estados Unidos arquitetam sua reação para intervir, desbancar e neutralizar o ciclo processual de desenvolvimento industrial, econômico, científico e tecnológico dos BRICS. No início do segundo decênio, aí travam uma nova “Guerra Fria” -e híbrida, através dos sórdidos instrumentos que historicamente utilizaram para frear, barrar e inibir o processo de afirmação da soberania, do desenvolvimento e da auto-determinação dos povos mundo afora. Com a Rússia e com a China não atingem a pretensão, mas, com o Brasil, a história foi outra.
A Rússia soberana, como nação herdeira da URSS, experiente e calejada em “guerra fria” e com um mega e sofisticado aparelho de inteligência e espionagem internacional, continua superando ardilosamente a obstaculização e eliminando sorrateiramente os possíveis tentáculos imperialistas impedidores de suas políticas mercadológicas e geopolíticas na área territorial de sua atuação, mantendo-se incólume na direção dos seus propósitos de soberania, desenvolvimento e estratégicos-comerciais. A China, por sua vez, com uma população de dois bilhões e 300 milhões de habitantes, um soberbo parque industrial e tecnológico e um mercado interno potencialmente consumidor, fez ampliar-se significativamente sua participação no mercado e aumentar sua influência política internacionalmente com ações completamente distonantes das historicamente praticadas pelos EUA, tornando-se noutro grande instrumento da dinâmica geopolítica mundial. Veja-se: enquanto os EUA promovem uma política conflituosa e predatória de intervencionismo geopolítico e mercadológico fundamentada na destruição, espoliação, usurpação das riquezas e dos recursos naturais estratégicos, miseralizando as nações e castrando seus sonhos de soberania e desenvolvimento, a China faz o contrário e implementa a política da diplomacia, da conciliação e da paz com as nações parceiras, valorizando o seu processo de soberanização e de desenvolvimento.
Com a reafirmação da soberania russa no pós queda do “Muro de Berlim”, com o potencial desenvolvimento da economia chinesa, com a flagorosa derrota para o Afeganistão (2021), com a perspectiva de ter o seu PIB superado ainda neste terceiro decênio de século pela China e com a própria e crescente instabilidade política e social interna, os EUA concentram o foco de suas intervenções geopolíticas na neocolonização da América Latina, principalmente do Brasil, pretensionando manter o que consideram ser o seu “imenso quintal continental” para vilipendiar o povo latino e usurpar-lhe suas riquezas e recursos naturais estratégicos.
Como os olhos satânicos e insones do imperialismo (veja-se o tal Tio Sam) vislumbram o horizonte conjuntural vindouro e projetam a desgraça das nações a serem vilipendiadas (a curto, a médio ou a longo prazo), a partir da eleição de Lula da Silva, da criação dos BRICS e da descoberta do Pré-Sal, da afirmação da soberania e do processo de franco desenvolvimento porque vivia o Brasil na “Era Lula”, no primeiro decênio deste século os EUA voltaram sua “máquina predatório-intervencionista-geopolítica” para barrar a ascensão soberana e desenvolvimentista da nação brasileira. A descoberta, o desenvolvimento de instrumentos tecnológicos de ponta à exploração do Pré-Sal e a importância ascensional do Brasil no cenário político-econômico mundial despertaram a fúria do Imperialismo Estadunidense sobre sua relativa perda de espaço e influência político-mercadológica na parte territorial latino-americana do continente. Fato incontestável: um Brasil soberano e desenvolvido jamais se coadunará com os interesses imperialistas estadunidenses, pois, se assim o for, ferem-se os preceitos de supremacia desse país império no continente americano.
O Golpe de 2016, transvestido no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, por um crime juridicamente inexistente e que, porquanto, nunca cometeu; o "lawfare" contra o ex-presidente Lula da Silva e o seu injusto encarceramento por 580 dias na PF de Curitiba pela Operação Lava Jato, arquitetada pela CIA e pelo Departamento de Justiça dos EUA e coordenada por generais das Forças Armadas e por lacaios do imperialismo (como o ex-juiz Sérgio Moro e o ex-promotor Deltan Dallagnol, que cometeram crimes de lesa-pátria, lesaram os princípios republicanos, promoveram o desmonte do Estado Brasileiro e naufragaram a economia nacional no limbo esquizofrênico do neoliberalismo), é o substrato do “projeto ogro-neocolonialista à nação brasileira latino-americana. Temer e Bolsonaro, títeres imperialistas, cumprem, ainda e à risca, os ditames da cartilha e da agenda impostas por seus patronais tutores estadunidenses. “O Brasil Acima de Todos” é sinônimo do anti-nacionalismo, do neocolonialismo, do morticínio e da miseralização do povo brasileiro latino-americano.
“Se e Somente Se”, “Ser ou Não Ser”, eis as equações, questões e motivos escancarados da guerra híbrida e satânica declarada pelo Imperialismo contra a NAÇÃO BRASILEIRA. Ao povo brasileiro latino-americano, aos partidos e movimentos populares nacionalistas compete somente um caminho concreto e de antemão pavimentado: lutar resiliente e intransigentemente pela ressoberanização nacional, pelo desenvolvimento e por sua própria auto-determinação. Em suma: que refunde-se o Estado Republicano Brasileiro!
Ivanildo di Deus Souto - Professor da Rede Pública Estadual de Ensino do Piauí/Teresina-PI.
Brasil 247
Este artigo não representa a opinião do InfoBRICS e é de responsabilidade do colunista.