Entrevista: Paulo Nogueira Batista Jr
O economista Paulo Nogueira Batista Jr é um observador privilegiado da cena econômica mundial. Como diretor executivo do FMI pelo Brasil e mais dez países, de 2007 a 2015, em Washington, acompanhou de perto a crise financeira mundial. De 2015 a 2017 foi vice-presidente, em Xangai, do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS.
Em entrevista a Gilberto Menezes Côrtes, comenta as escaramuças na geopolítica mundial em março, iniciadas pelas barreiras protecionistas do presidente Trump ao aço e ao alumínio e que culminaram com a explusão de diplomatas russos pelos Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido, com o revide de Putin aos diplomatas ocidentais. Para ele a globalização acabou e está surgindo uma nova ordem mundial, na qual o Brasil precisa se posicionar para não perder espaço.
"No início do século 21, o mundo vem se tornando cada vez mais multipolar. Com a ascensão da China, o fortalecimento da Rússia, o crescimento acelerado da Índia, novos polos vão se consolidando”
O que começou como suposta guerra comercial estaria dando lugar a uma nova geopolítica?
Sem dúvida. Os conflitos desencadeados pelo unilateralismo do presidente Trump têm como pano de fundo a perda gradual de peso econômico relativo e poder político dos EUA e do Ocidente de modo geral. Desde o início do século 21, o mundo vem se tornando cada vez mais multipolar. Com a ascensão da China, o fortalecimento da Rússia, o crescimento acelerado da Índia, novos polos de influência vão se consolidando. Até recentemente, o Brasil também vinha se constituindo em novo polo de poder. A formação dos BRICS a partir de 2008 faz parte desse processo. Já vai longe o “momento unipolar” dos EUA que se seguiu ao colapso do bloco soviético.
Estamos diante de novo rearranjo na geopolítica e no comércio mundial?
É uma situação perigosa, com desdobramentos difíceis de prever. A eleição de Trump é, em parte, uma reação a esse rearranjo. Os americanos não estão lidando bem com o declínio relativo do seu poder econômico e político. Eles se acostumaram a ser número 1, são agressivos e orgulhosos. Se nós temos complexo de vira-lata, eles têm complexo de pitbull. Morei 8 anos em Washington e acredito que conheço razoavelmente bem o país. É um povo profundamente nacionalista. Morava lá quando a economia chinesa ultrapassou a americana, medida pelo PIB paridade de poder de compra. Foi um choque. O país foi parar no divã. Os outros países que se cuidem, especialmente a China e a Rússia. É quando estão em declínio que as grandes potências costumam ser mais perigosas.
O que está acontecendo é uma chacoalhada na globalização?
A chamada globalização do final do século 20 acabou. As elites americanas e europeias perderam legitimidade e liderança. A imensa quantidade de dinheiro que se gastou socorrendo bancos privados depois do colapso financeiro em 2008 provocou revolta e erodiu a credibilidade da turma da bufunfa. A eleição de Trump, Brexit, a ascensão de partidos nacionalistas e xenófobos em muitos países europeus são sintomas evidentes de rejeição do “globalismo” no interior dos países que lideravam a internacionalização.
Como fica a China nesse cenário?
Nos dois anos em que vivi em Xangai, e nos meus contatos com funcionários chineses no FMI, no G20 e no processo BRICS, comecei a compreender melhor a China. Não é fácil. Trata-se de outro planeta. E os chineses não são nada transparentes. Pregam a abertura e a globalização, mas a sua prática é nacionalista e intervencionista, sempre que conveniente. É preciso ter cuidado com eles. O longo prazo é da China, que vai se tornar cada vez mais importante do ponto de vista econômico e político.
As medidas sugeridas por Trump, como a tributação de até US$ 60 bilhões nas exportações chinesas para os EUA, podem mudar a atual ordem mundial e o fluxo comercial vigente?
Os EUA ainda são muito poderosos e podem extorquir concessões comerciais bilaterais dos principais parceiros, inclusive a China. A ordem mundial vai ser alterada, sim. O que está acontecendo é um tremendo enfraquecimento do sistema multilateral estabelecido sob liderança dos EUA após a Segunda Guerra Mundial. A Organização Mundial do Comércio, que já estava em declínio, entra em crise grave. O mesmo deve acontecer, em menor medida, com o Banco Mundial e o FMI. Os EUA, sob Trump, estão minando um sistema multilateral que, em grande medida, criaram e controlam! A impressão é que os EUA vão sair ainda mais enfraquecidos desse processo todo.
Como sócio de 20% no banco dos Brics, o Brasil está fazendo bom uso da parceria chinesa, ou age pouco na cena mundial para afirmar seus interesses?
Os BRICS são uma plataforma fundamental. Nenhum governo brasileiro vai abrir mão dessa parceria. Porém, desde os anos finais do governo Dilma, o Brasil está perdendo espaço na cena mundial.
No governo Temer, o problema se agravou. Com a profunda crise econômica e política, desde 2014, o Brasil perdeu muito da influência e credibilidade. Nos meus anos finais em Washington e, depois, em Xangai, senti isso diretamente. Minha capacidade de atuar e obter resultados diminuiu. A maior realização dos BRICS foi a criação do Novo Banco de Desenvolvimento, com sede em Xangai. Esse banco pode ser uma plataforma para reforçar a parceira do Brasil com a China, mas não começou nada bem. Desde julho de 2015, na sua criação, pouco se alcançou. As relações entre China e Índia se deterioraram. África do Sul e Brasil se enfraqueceram muito, por suas crises econômicas e políticas. Também foi infeliz a escolha do presidente do Banco, um indiano, e dos vice-presidentes russo e sul-africano, fracos para a fase de montagem. A governança do banco foi abalada também pela maneira como se deu a minha saída, o vice-presidente com mais experiência e conhecimento do processo BRICS, por pressão de alguns integrantes do governo brasileiro, liderados pelo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn.
Quem são os países que mais estão explorando a capacidade de financiar do banco dos BRICS? Há novos interessados em entrar para o clube?
A maior parte dos projetos aprovados foram para a Rússia, Índia e China. Mas os desembolsos têm sido pequenos. O Brasil, desorganizado como está, não tem recebido muitos projetos. A representação, que se faz pela assessoria internacional do Ministro da Fazenda e pelo Banco Central, é amadorística e incompetente. Uma das minhas áreas de responsabilidade no banco dos BRICS era a negociação com novos países membros. Havia interesse de Turquia, Egito, Marrocos, Irã, Belarus, Vietnã, Bolívia, Uruguai entre outros. A ideia era expandir o número de países membros aos poucos. A resistência da Rússia, que teme a entrada de inimigos do país no banco, paralisou o processo.ou muito o processo. Pelo que sei, depois da minha saída o processo ficou paralisado.
Fonte: Jornal do Brasil