Liderança tecnológica como caminho para a soberania
Os países do BRICS enfrentam desafios semelhantes: fortalecer a soberania, desenvolver a economia e melhorar a qualidade de vida de seus povos. O avanço científico e tecnológico é fundamental para alcançar esses objetivos. Segundo especialistas, o grupo reúne condições para conquistar uma posição de destaque na corrida tecnológica global, graças a avanços em áreas como inteligência artificial, transporte autônomo, energia verde, comunicação quântica e exploração espacial.
Em termos de participação nos gastos mundiais com pesquisa e desenvolvimento (P&D), a China responde por 27,4%, a Índia, por 2,6%, e a Rússia, por 1,3%. Os três países estão entre os 20 primeiros do mundo nesse indicador. Além disso, a Rússia continua entre os líderes mundiais em número de pessoas empregadas na área científica, segundo analistas da Escola Superior de Economia. Em 2024, o país contava com 382,8 mil pesquisadores. O primeiro lugar é ocupado pela China, com 3 milhões de especialistas.
Os países do BRICS também podem se beneficiar do efeito sinérgico da cooperação científica, desde que unam seus amplos recursos financeiros e intelectuais e eliminem barreiras burocráticas à mobilidade de pesquisadores.
Vadim Elfimov, especialista em geopolítica, ideologia, construção de alianças e países do BRICS e chefe do Departamento de Política Social e Ideologia da Academia de Administração Pública vinculada à Presidência de Belarus, destaca quatro áreas estratégicas que os países do grupo devem enfrentar conjuntamente:
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- buscar um novo equilíbrio de forças, no qual os países do BRICS, com seu alcance intercontinental, desempenhem um papel fundamental e integrador;
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- formular um novo conceito de arquitetura mundial baseado não na unipolaridade, mas na multipolaridade;
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- desenvolver uma nova economia política mundial de acordo com a transição para um sistema de “cooperação e assistência mútua”;
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- adaptar e desenvolver o modelo de mercado regulado em um contexto de fortalecimento do papel do Estado, que atua em benefício de amplas parcelas da população.
A solução de desafios estratégicos dessa magnitude exige o fortalecimento da integração científica nas áreas de tecnologia e inovação, sobretudo em campos interdisciplinares como:
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- energia e meio ambiente;
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- medicina e biotecnologia;
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- alimentação e agricultura;
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- inteligência artificial e big data;
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- ciência dos materiais e física.
A cooperação nessas e em outras áreas tem como base o Memorando de Entendimento sobre Ciência, Tecnologia e Inovação de 2015, o Programa-Quadro do BRICS para Ciência, Tecnologia e Inovação, além das declarações anuais das cúpulas de líderes e das reuniões ministeriais dos setores correspondentes.
Energia e meio ambiente
Os países da associação dedicam grande atenção à cooperação científica nas áreas de meio ambiente e energia. Os avanços nesses campos influenciam diretamente a qualidade de vida e a segurança alimentar, além do desenvolvimento da inteligência artificial e do big data, que demandam grandes volumes de energia.
Em agosto de 2026, durante uma reunião ministerial realizada em Nova Délhi, os países do BRICS aprovaram as prioridades da cooperação ambiental. Entre elas estão a restauração de florestas, o combate a incêndios florestais, a transição para uma economia circular, a preservação da resiliência dos ecossistemas e a adaptação às mudanças climáticas.
Também foi discutida a adoção de medidas práticas no âmbito da plataforma BEST (BRICS Environmentally Sound Technology Platform), voltada para tecnologias ambientalmente sustentáveis. A iniciativa permite que os países do grupo compartilhem experiências sobre a implementação de inovações verdes e promovam a transferência de tecnologias ambientalmente sustentáveis, inclusive por meio da criação de um site dedicado à agenda ambiental.
Desde 2015, o BRICS conta com a Plataforma de Pesquisa Energética, que promove discussões permanentes sobre energia renovável, hidrogênio e gás. Os Emirados Árabes Unidos investem ativamente em energia solar e de hidrogênio. Em Dubai, já funciona o Parque Solar Mohammed bin Rashid Al Maktoum, um dos maiores parques solares do mundo. A Indonésia, por sua vez, inclui na agenda questões relacionadas à gestão de florestas tropicais.
Ao mesmo tempo, a cooperação vem avançando do intercâmbio de experiências e da criação de plataformas para a realização de projetos conjuntos nas áreas de energia e meio ambiente. Nikolai Dolguikh, diretor-geral da companhia sem fins lucrativos Technology Capital, professor da Universidade Plekhanov de Economia e palestrante do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF) e do Fórum Econômico do Oriente, cita como exemplo a parceria entre a Rússia e a China no monitoramento de recursos hídricos e no compartilhamento de dados, inclusive sobre a bacia do rio Amur.
A China e o Brasil também seguem ampliando a cooperação em meio ambiente e energia verde. Empresas chinesas já estão construindo usinas eólicas e solares no Brasil. Um exemplo é o projeto eólico Tanque Novo, no estado da Bahia, em operação desde 2023. A usina fornece eletricidade para 430 mil residências e, ao mesmo tempo, reduz as emissões de dióxido de carbono em 650 mil toneladas por ano. Além disso, a China e o Brasil estão realizando o monitoramento conjunto das florestas amazônicas por meio da série de satélites CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite).
“Na área de energia, eu destacaria os projetos russo-chineses voltados para tecnologias de baixo carbono, especialmente o hidrogênio. Nesse campo, já estão sendo discutidos não apenas os próprios processos de produção, mas também o uso posterior e a exportação dos produtos obtidos”, disse Nikolai Dolguikh.
Segundo especialistas, empresas russas já estão desenvolvendo projetos para o fornecimento de hidrogênio e planejam construir instalações em Sacalina para atender ao mercado chinês.
Medicina e biotecnologia
A cooperação entre os países do BRICS nas áreas de medicina e biotecnologia busca criar uma base científica e de pesquisa integrada, combater epidemias e desenvolver soluções inovadoras na área farmacêutica. Entre as principais iniciativas estão o Centro do BRICS para Pesquisa e Desenvolvimento de Vacinas e as reuniões regulares dos grupos de trabalho especializados, que coordenam projetos transfronteiriços.
Em 2023, foi criado um grupo de trabalho especial dos países do grupo dedicado ao desenvolvimento e à produção de medicamentos inovadores. Também está em discussão no âmbito do BRICS a criação de um consórcio para desenvolver medicamentos de nova geração adaptados às características genéticas e metabólicas das populações dos países participantes. Na área de medicina nuclear, são implementados programas conjuntos para a produção de radioisótopos destinados ao diagnóstico e tratamento de doenças oncológicas.
No que diz respeito a produtos concretos, os especialistas destacam não vacinas já prontas, mas avanços que podem abrir caminho para novas soluções, como a cooperação entre os países na criação de alternativas comprovadamente seguras aos medicamentos biológicos, a preços mais acessíveis.
“A cooperação entre a Rússia e a Índia no desenvolvimento de biossimilares de anticorpos monoclonais está avançando ativamente. Esses medicamentos são utilizados no tratamento da artrite reumatoide e da esclerose múltipla. A expectativa é de que, em um futuro próximo, seu custo possa cair significativamente, tornando o tratamento acessível a uma parcela muito maior da população”, compartilhou Margarita Isakova, especialista em diplomacia acadêmica e científica, exportação da educação russa, cooperação internacional na área da saúde e pesquisa médica internacional
Para a especialista, o principal avanço da cooperação entre os países do BRICS nas áreas de medicina e biotecnologia é a mudança no âmbito institucional. Graças a ela, estão sendo criados mecanismos para acelerar o reconhecimento mútuo de dados clínicos, além de serem desenvolvidas abordagens comuns para a elaboração de dossiês de registro e a realização de inspeções em instalações de produção. No passado, esse processo de harmonização levava décadas.
Inteligência artificial e big data
A inteligência artificial é outra frente estratégica da cooperação tecnológica entre os países do BRICS. Em 2024, durante a cúpula realizada em Kazan, os países aprovaram um programa-quadro de cooperação em IA. A iniciativa abriu caminho para projetos voltados ao processamento de idiomas dos países da associação, à agricultura inteligente e à previsão de mudanças climáticas. Também está prevista, no âmbito do Corredor Digital em Nuvem do BRICS, a criação de uma rede compartilhada para armazenamento de dados e computação de alto desempenho.
Em julho de 2025, durante o Fórum de Mídia e Think Tanks do BRICS, no Rio de Janeiro, foi apresentada uma iniciativa para promover o uso conjunto de inteligência artificial na produção de conteúdo jornalístico e nas pesquisas realizadas por think tanks. Em novembro do mesmo ano, os países do BRICS+ lançaram um hub com 80 casos de uso de IA já testados e validados em 30 países.
“Os países enfrentam desafios semelhantes: grandes territórios, multilinguismo e setores complexos, como medicina e agricultura. Nesse contexto, faz sentido compartilhar experiências, tecnologias e profissionais. Sem cooperação, especialmente em pesquisa, segurança e infraestrutura, tudo fica mais difícil e mais caro para todos”, afirmou Semion Teniaev, especialista da área de TI e negócios.
Cooperação tecnológica do BRICS avança para novas áreas
Os países do BRICS também cooperam nas áreas de física, astronomia, ciência dos materiais, engenharia, química, biologia e agricultura. Ao mesmo tempo, cientistas ressaltam que a formação de profissionais qualificados para impulsionar o desenvolvimento tecnológico é tão importante quanto a criação e o intercâmbio de tecnologias. Nesse contexto, uma diplomacia científica eficaz se torna um dos fatores fundamentais para ampliar a cooperação. A infraestrutura já criada no âmbito do BRICS pode contribuir para esse objetivo.
“No âmbito do BRICS, existem grupos científicos temáticos, são realizados editais conjuntos de pesquisa, intercâmbios de cientistas e programas voltados para jovens pesquisadores. Ao longo dos últimos dez anos, foram realizados seis editais conjuntos de pesquisa, nove fóruns de jovens cientistas e sete edições do Prêmio de Jovens Inovadores como parte do mecanismo de cooperação existente”, destaca Nikolai Dolguikh.
Segundo o especialista, também é importante garantir que os projetos e desenvolvimentos conjuntos não permaneçam apenas no papel, mas encontrem aplicação prática nos países participantes da associação. O BRICS também conta com mecanismos voltados para esse objetivo. Desde 2025, está em vigor um Plano de Ação para o Desenvolvimento das Pequenas e Médias Empresas, com foco em inovação, economia digital e cooperação tecnológica. A iniciativa prevê a participação de PMEs em fóruns e exposições internacionais, onde poderão buscar parceiros para licenciar tecnologias e criar uma base comum de capacidades tecnológicas. “É justamente essa transição que faltava durante muito tempo: passar da pesquisa científica conjunta para a etapa em que o desenvolvimento chega às empresas e ao mercado”, afirma Nikolai Dolguikh.
Os especialistas, no entanto, também apontam uma série de desafios que dificultam tanto a realização de projetos científicos conjuntos no BRICS quanto a transferência de tecnologias. Entre eles estão as diferenças entre os sistemas nacionais de regulamentação e financiamento, os padrões e os procedimentos de proteção da propriedade intelectual. Há ainda questões práticas, como barreiras linguísticas, dificuldade para encontrar parceiros adequados e diferenças nos requisitos tecnológicos e nos prazos para levar uma tecnologia ao mercado.
Tudo isso muitas vezes cria uma lacuna entre o resultado científico e o produto comercial. Essa lacuna é uma das principais razões pelas quais ouvimos falar de um avanço científico, mas depois não vemos sua aplicação: a tecnologia pode não chegar a ser implementada ou esse processo pode levar décadas. Por isso, os especialistas defendem cada vez mais a criação, no âmbito do BRICS, das chamadas cadeias tecnológicas, nas quais esteja claro quem será o detentor da tecnologia, quem ficará responsável por seu aperfeiçoamento, quem financiará sua expansão e onde ela será aplicada.
“O próximo nível da cooperação do BRICS em ciência e tecnologia é passar do modelo ‘pesquisamos juntos’ para o modelo ‘criamos, implementamos e ampliamos juntos’. É justamente aí que está o maior potencial”, ressalta Nikolai Dolguikh.
Segundo os especialistas, uma forma de enfrentar esses desafios seria criar, no âmbito do BRICS, redes de centros de transferência de tecnologia e realizar concursos conjuntos voltados ao desenvolvimento tecnológico. Outra medida importante seria ampliar o uso das plataformas digitais já existentes para facilitar a busca por tecnologias e parceiros entre os países.