Por Fabio Lucas Carvalho
Pela primeira vez em décadas, o bloco dos BRICS ultrapassou o G7 na participação do PIB mundial, atingindo quase 35%, impulsionando debates sobre o futuro do dólar, a reorganização do comércio global, o uso crescente de moedas alternativas e o impacto geopolítico das sanções aplicadas desde 2022.
Para alguns especialistas, o avanço dos BRICS marca uma inflexão histórica na economia internacional, ao retirar das nações do G7 a liderança isolada sobre a maior parcela do PIB global, algo que moldou o sistema financeiro desde o pós-
Segunda Guerra Mundial.
Esse novo bloco inclui Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e outros países, reunindo grande peso demográfico, vastas reservas de commodities e crescente integração comercial fora do eixo ocidental tradicional.
A mudança ocorre em paralelo a um debate antigo sobre moedas de reserva globais, historicamente associadas aos impérios dominantes.
Após a Segunda Guerra Mundial, o dólar consolidou sua hegemonia com o acordo de Bretton Woods em 1944, tornando se oficialmente a principal moeda de reserva e referência para comércio, finanças e investimentos globais.
Um relatório do Atlantic Council, apesar de concluir que o dólar ainda domina, relata que sanções e mudanças geopolíticas incentivaram os países do BRICS a adotar sistemas de pagamento alternativos (como CIPS) e a pressionar por alternativas ao dólar nas transações internacionais.
Dólar como pilar do sistema financeiro internacional
Atualmente, o dólar ainda domina as reservas bancárias globais, representando cerca de 58% em 2024, muito acima do euro, que aparece em segundo lugar com aproximadamente 20%, mantendo ampla vantagem estrutural.
Essa predominância faz do dólar uma espécie de sistema operacional da economia internacional, pois petróleo, grãos, microchips e a maioria das commodities estratégicas são cotadas e liquidadas nessa moeda.
Como resultado, grande parte das transações internacionais relevantes passa por bancos americanos, o que concede aos Estados Unidos poder para bloquear pagamentos e reservas de países que contrariem seus interesses estratégicos.
Esse mecanismo ficou evidente após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, quando centenas de bilhões de dólares das reservas estrangeiras russas foram congelados e o país foi excluído do sistema Swift.
A ação coordenada pelos EUA e aliados isolou financeiramente Moscou, reforçando entre países não ocidentais a percepção de vulnerabilidade estrutural ao domínio do dólar e das instituições associadas.
Sanções aceleram o movimento de desdolarização
As sanções de 2022 funcionaram como catalisador para o processo de desdolarização, levando países dos BRICS a buscar alternativas para reduzir exposição a bloqueios financeiros e restrições comerciais.
Um dos primeiros passos foi a reorganização dos fluxos de comércio, especialmente no setor energético, afastando se do Ocidente e redirecionando exportações para mercados asiáticos.
Após fevereiro de 2022, as exportações russas de petróleo para Índia e China cresceram de forma acentuada, enquanto as vendas para países europeus caíram drasticamente devido às sanções.
O elemento central dessa mudança está na moeda utilizada, pois acordos bilionários passaram a ser fechados em yuan chinês e rublo russo, substituindo o dólar nas liquidações comerciais.
Antes da guerra, a maior parte das exportações russas era liquidada em dólares ou euros, superando amplamente o uso do próprio rublo em transações internacionais.
Com a entrada das sanções, a participação do dólar despencou, e atualmente quase 75% das exportações russas são liquidadas em rublos e yuans, segundo os dados apresentados.
Redução de títulos do Tesouro e corrida pelo ouro
Outro movimento relevante envolve a redução das posições dos BRICS em títulos do Tesouro americano de longo prazo, uma mudança gradual, porém consistente, desde 2010.
Há cerca de 15 anos, esses países detinham mais de 40% das participações globais em títulos do Tesouro dos EUA, proporção que hoje caiu para menos de 20%.
A saída desses ativos levanta a questão sobre o destino do capital, e a resposta tem sido o fortalecimento das reservas em ouro, considerado um ativo neutro e fora do alcance de sanções diretas.
As reservas chinesas de ouro, como proporção do total de reservas estrangeiras, cresceram rapidamente desde meados de 2022, marcando uma inflexão clara na estratégia financeira do país.
A Rússia segue padrão semelhante, com acúmulo acelerado de ouro após um longo período de estabilidade, reforçando a busca por ativos que não possam ser congelados ou bloqueados.
O ouro é visto como dinheiro real, que não pode ser impresso por governos nem eliminado por decisões políticas, servindo como base potencial de confiança para novos sistemas financeiros.
Queda gradual da dominância do dólar
Apesar de seguir líder, a participação do dólar nas reservas globais caiu de cerca de 70% em 2001 para 58% em 2024, uma redução de 12 pontos percentuais ao longo de pouco mais de duas décadas.
Quase metade dessa queda ocorreu apenas nos últimos 10 anos, sinalizando aceleração recente do movimento, ainda que o dólar mantenha ampla vantagem sobre moedas concorrentes.
Essa perda de espaço não está sendo absorvida majoritariamente pelo euro, mas sim por moedas consideradas não tradicionais, que cresceram mais de 2% desde 2020.
Esse avanço, embora pequeno em termos absolutos, indica diversificação das reservas globais e redução da dependência exclusiva do dólar americano.
Tensões internas limitam avanço dos BRICS
Apesar do impulso, a desdolarização enfrenta obstáculos significativos, pois os BRICS não formam uma aliança homogênea, compartilhando mais o objetivo de reduzir a influência ocidental do que uma agenda econômica unificada.
Existem tensões profundas entre os membros, incluindo disputas geopolíticas, interesses estratégicos divergentes e diferentes modelos econômicos, o que dificulta a criação de uma moeda comum robusta.
Essas fragilidades internas reduzem a previsibilidade e a confiança necessárias para que uma moeda dos BRICS substitua o dólar como reserva dominante no curto prazo.
Ainda assim, o bloco reúne poder demográfico expressivo e controle relevante sobre commodities estratégicas, fatores que sustentam seu papel crescente no comércio internacional.
Sanções tecnológicas e efeitos colaterais
O debate sobre o declínio do dólar se conecta a outra frente, a das sanções tecnológicas, como no caso das restrições americanas à venda de microchips avançados para a China.
Após limitações impostas durante o governo Biden, a Nvidia passou a vender chips H20, versões diluídas, ao mercado chinês, gerando cerca de 15 bilhões de dólares em receita.
Posteriormente, novas restrições bloquearam essas vendas, afetando diretamente uma empresa americana, enquanto fabricantes chineses intensificaram esforços para desenvolver chips domésticos.
A Huawei, severamente impactada por sanções, viu sua receita trimestral cair 76%, mas reagiu diversificando negócios e investindo em serviços de nuvem dentro da China.
Dois anos depois, a empresa lançou um smartphone com chip produzido domesticamente, surpreendendo o mercado e demonstrando capacidade de contornar bloqueios tecnológicos.
Esses episódios reforçam a percepção de que sanções podem acelerar a autossuficiência tecnológica de países alvo, enfraquecendo o poder econômico de empresas ocidentais no longo prazo.
Um sistema global em transição
O cenário atual sugere um ponto de virada, com um bloco emergente buscando alternativas ao sistema dominado pelo dólar, enquanto os EUA mantêm força econômica e militar sem precedentes.
O sucesso dos BRICS em redefinir o sistema monetário global não é garantido, mas os sinais de mudança são claros e sustentados por dados de comércio, reservas e investimentos.
A história mostra que moedas acompanham o surgimento de novas potências, mas também revela que transições monetárias são lentas, complexas e marcadas por conflitos e ajustes graduais.
No curto prazo, o dólar segue central, mas o movimento de diversificação, ouro, moedas alternativas e acordos bilaterais fora do sistema tradicional indica que o mundo já não é o mesmo de décadas atrás.