O grupo BRICS, expandido para incluir Egito e Arábia Saudita, avança nos planos para introduzir uma moeda própria destinada ao comércio interno, com previsão de lançamento até 2026. Esta iniciativa estratégica, amplamente discutida durante a cúpula do Rio de Janeiro em julho de 2025, visa diminuir a forte dependência do dólar americano, cuja cotação atingiu R$ 5,38 em agosto de 2025. Impulsionada pelo Brasil, a proposta reflete a crescente busca por autonomia econômica em um cenário de tensões geopolíticas e a persistente influência dos Estados Unidos no sistema financeiro global. A meta é fortalecer a soberania dos países membros, que, em conjunto, representam 46% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial em paridade de poder de compra, buscando uma nova ordem monetária mais equilibrada. A movimentação é vista como um passo crucial para reconfigurar as relações comerciais e financeiras entre as nações emergentes e em desenvolvimento.
A criação da moeda do BRICS surge como uma resposta direta à necessidade de otimizar as transações comerciais e financeiras entre seus membros, que têm visto suas economias impactadas pela volatilidade cambial e por sanções. A proposta visa não apenas estabilizar o intercâmbio comercial, mas também proteger os países de eventuais medidas unilaterais que possam afetar suas cadeias de suprimentos e fluxos de capital. A união de forças busca criar um ecossistema financeiro mais resiliente e independente, onde as decisões econômicas sejam menos suscetíveis a pressões externas, garantindo maior previsibilidade e segurança para os investimentos e o comércio.
As discussões sobre a moeda própria do BRICS incluem a implementação de um sistema que permita a liquidação de pagamentos em moedas locais, evitando a conversão para o dólar. Essa abordagem tem o potencial de reduzir significativamente os custos de transação e simplificar os processos de comércio entre os países do bloco. A experiência de sucesso de sistemas de pagamento digital, como o Pix brasileiro, serve de inspiração para o desenvolvimento de uma infraestrutura robusta e eficiente que possa suportar o volume de transações esperado. O objetivo é criar uma alternativa viável e competitiva ao sistema financeiro tradicional dominado pelo dólar, oferecendo maior flexibilidade e autonomia aos membros do bloco.
Os benefícios esperados com a implementação da moeda do BRICS são múltiplos e abrangem desde a redução de custos operacionais até o fortalecimento da integração econômica. Entre os principais objetivos, destacam-se:
• Reduzir custos de transações internacionais.
• Proteger o bloco contra sanções financeiras.
• Promover o uso de moedas locais no comércio.
• Ampliar a integração econômica entre os membros.
BRICS Pay: a nova arquitetura de pagamentos
O BRICS Pay, uma plataforma central no projeto da moeda do BRICS, está sendo concebido para facilitar transações diretas em moedas locais, como o real, yuan e rublo, eliminando a necessidade de conversão para o dólar. Em 2025, uma parcela significativa de 90% do comércio intra-bloco já era realizada em moedas locais, um aumento notável em comparação aos 65% registrados em 2023, conforme dados da rede SWIFT. Este avanço demonstra a crescente aceitação e viabilidade de um sistema de pagamentos desdolarizado, pavimentando o caminho para a introdução da moeda própria do bloco.
Com o Brasil liderando o desenvolvimento de um sistema inspirado em moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), a expertise brasileira com o Pix é um diferencial. Testes piloto estão agendados para 2026, envolvendo Brasil, China e Rússia, com foco primordial na eficiência e segurança das transações. A expectativa é que a tecnologia blockchain seja um pilar fundamental para garantir a rapidez e o baixo custo das operações, consolidando o BRICS Pay como uma alternativa robusta e moderna no cenário financeiro global.
A vanguarda do Brasil na desdolarização
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou, em 12 de agosto de 2025, a importância de um sistema de pagamentos que dispense a conversão para o dólar em transações comerciais. Esta defesa ganhou considerável apoio durante a cúpula do Rio, onde o Brasil apresentou o BRICS Pay como uma alternativa tangível e viável para o comércio intra-bloco.
A experiência do Banco Central brasileiro na implementação e sucesso do Pix serve como uma fonte de inspiração para o modelo que está sendo desenhado. O sistema proposto deve utilizar a tecnologia blockchain para assegurar transações rápidas, transparentes e com custos reduzidos, facilitando a integração econômica dos membros.
O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), atualmente sob a presidência de Dilma Rousseff, desempenha um papel crucial ao financiar a transição para este novo modelo. O banco disponibilizou US$ 30 bilhões em 2025 para apoiar projetos que visam reduzir a dependência do dólar, demonstrando o compromisso do bloco com a iniciativa.
A China, com o yuan já presente em cerca de 50% das transações internas do BRICS, manifesta forte apoio à proposta. Contudo, desafios persistem, especialmente as tensões com a Índia, que dificultam a harmonização de políticas monetárias e a plena coordenação das estratégias financeiras entre os países.
Propostas e modelos para a moeda do bloco
O BRICS está avaliando de forma abrangente três formatos distintos para a implementação de sua moeda própria, cada um com características e implicações específicas para o futuro financeiro do bloco. O primeiro modelo considerado é um sistema digital robusto, ancorado nas Moedas Digitais de Bancos Centrais (CBDCs), que busca aproveitar a eficiência e a segurança das tecnologias digitais para transações internacionais. Uma segunda alternativa envolve uma moeda atrelada a uma cesta de commodities essenciais, como ouro e petróleo, visando conferir estabilidade e valor intrínseco. Por fim, o terceiro formato em estudo é uma unidade de conta inspirada nos Direitos Especiais de Saque (DES) do Fundo Monetário Internacional (FMI), que funcionaria como um valor de referência sem ser uma moeda física em si. O modelo digital, operacionalizado através do BRICS Pay, é o que se encontra em estágio mais avançado de desenvolvimento e testes. A China, pioneira no yuan digital, lidera as discussões neste segmento, enquanto o Brasil e a Rússia também avançam no desenvolvimento de suas próprias moedas digitais. Bancos centrais dos países membros já estão conduzindo pilotos para transações transfronteiriças seguras, e o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) continua a apoiar ativamente projetos que visam diminuir a dependência do dólar. A volatilidade observada no dólar, que levou a uma queda de 5% nas reservas globais desde 2020, segundo o FMI, apenas reforça a urgência e a busca por alternativas mais estáveis e soberanas para o comércio e as finanças globais.
Obstáculos e desafios à plena implementação
A concretização da integração financeira no BRICS enfrenta uma série de desafios complexos. Divergências políticas entre os países membros representam um obstáculo significativo, dificultando a coesão necessária para avançar em um projeto monetário comum. Além disso, a proeminência da China no comércio dentro do bloco gera preocupações entre os demais membros sobre possíveis desequilíbrios de poder e influência econômica.
A harmonização das políticas monetárias dos países do BRICS é outro ponto crítico, especialmente entre a China e a Índia, que frequentemente competem por protagonismo e influência regional. Essas diferenças podem atrasar ou complicar a adoção de um padrão monetário unificado, exigindo negociações e concessões complexas.
Exportadores brasileiros, por sua vez, manifestam receios quanto à perda de flexibilidade nas transações globais, caso a nova moeda limite suas opções de câmbio. Os bancos centrais do bloco estão empenhados em desenvolver mecanismos que mitiguem riscos de dívidas e garantam a estabilidade do sistema, enquanto a resistência do setor privado e a complexidade dos acordos multilaterais também exigem atenção para o progresso do projeto.
Repercussões internacionais e a reação dos EUA
A iniciativa do BRICS de desenvolver uma moeda própria tem gerado reações notáveis no cenário internacional, especialmente por parte dos Estados Unidos, que manifestaram forte resistência ao projeto. Em julho de 2025, o ex-presidente Donald Trump chegou a sinalizar a possibilidade de impor tarifas de até 100% sobre produtos provenientes dos países do BRICS, caso a moeda do bloco avance, classificando-a como uma ameaça direta à hegemonia do dólar.
Apesar das pressões, o presidente Lula reafirmou publicamente que a iniciativa não possui um caráter antiamericano, mas sim busca garantir uma maior autonomia financeira para o BRICS. A justificativa é que a dominância do dólar, que atualmente responde por cerca de 84% das transações globais, exige alternativas que promovam um sistema monetário mais multipolar e equitativo para as economias emergentes.
Avanços no comércio e integração regional
Enquanto a moeda própria do BRICS não é plenamente implementada, o bloco tem fortalecido sua integração comercial por meio de acordos bilaterais, como os estabelecidos entre Brasil e Argentina, que permitem pagamentos em reais e pesos, reduzindo a dependência do dólar. A Cúpula de Kazan, realizada anteriormente, foi um marco importante ao consolidar a base para o BRICS Bridge, um precursor do BRICS Pay, que visa otimizar as operações comerciais e financeiras entre os países membros.