O BRICS, grupo que reúne nações emergentes, intensifica o debate sobre a criação de uma moeda de referência para o comércio interno. A proposta visa reduzir a forte dependência do dólar americano nas transações entre os membros fundadores, como Rússia, China, Índia e África do Sul, e os novos integrantes. O movimento ganha tração em meio a crescentes tensões geopolíticas globais.
As discussões sobre o tema registraram progressos significativos durante a cúpula realizada no Rio de Janeiro, em julho. O objetivo central é estabelecer um mecanismo de liquidação que garanta maior autonomia financeira e resiliência econômica aos países do bloco. A meta de implementação completa do novo sistema está prevista para ocorrer até o final de 2026, segundo líderes da área financeira.
Atualmente, o bloco representa uma parcela considerável da economia global, somando 46% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial em Paridade de Poder de Compra. A busca por alternativas cambiais se fortalece especialmente diante da cotação do dólar, que atingiu patamares elevados, como o registro de R$ 5,38 em agosto.
O PANO DE FUNDO DAS TENSÕES GEOPOLÍTICAS
A iniciativa de desdolarização é uma resposta direta à dominância histórica dos Estados Unidos no sistema financeiro internacional, que, segundo membros do grupo, é frequentemente utilizada como ferramenta de pressão e imposição de sanções. A utilização do dólar como arma financeira, exemplificada pelas medidas aplicadas à Rússia a partir de 2022, tem motivado os bancos centrais e governos do BRICS a acelerar a busca por instrumentos que protejam suas economias de vulnerabilidades externas. A criação de um sistema próprio é encarada como uma estratégia fundamental para elevar a soberania econômica, garantir a liberdade de comércio entre os parceiros do bloco e, consequentemente, cortar custos de transação que, em algumas estimativas, podem ser reduzidos em até 20%.
MODELOS EM AVALIAÇÃO E O FUTURO DIGITAL
O grupo avalia diferentes formatos para a nova unidade de liquidação, com três modelos principais sob análise detalhada dos bancos centrais e ministérios de economia. Uma das opções que lidera as preferências internas é o desenvolvimento de um sistema digital baseado em Moedas Digitais de Bancos Centrais (CBDCs), que permitiria a transação rápida e segura de valores. A China, por exemplo, já está em estágio avançado nos testes com o yuan digital, o que confere ao país uma liderança tecnológica na discussão sobre este formato específico.
Outros modelos em debate incluem uma proposta de atrelamento a uma cesta de commodities, como ouro e petróleo, criando um lastro físico para a nova moeda, e a ideia de uma unidade de conta. Esta última seria semelhante aos Direitos Especiais de Saque (DES) do Fundo Monetário Internacional (FMI), servindo apenas para liquidar dívidas e registrar valores, sem circulação física ou digital direta. A diversificação na análise dos modelos visa encontrar o formato mais estável e aceitável por todas as nações do grupo.
AVANÇOS COM A PLATAFORMA BRICS PAY
A plataforma de pagamentos BRICS Pay ganhou centralidade imediata no projeto, funcionando como um mecanismo que viabiliza as transações diretas em moedas locais, como o Real, a Rúpia e o Rublo. Essa infraestrutura permite que o comércio entre os países aconteça sem a etapa intermediária de conversão obrigatória para o dólar. Os dados de 2025 mostram um avanço notável: 90% do comércio realizado dentro do bloco já utiliza as moedas nacionais, em contraste com os 65% registrados apenas dois anos antes.
O país tem desempenhado um papel ativo no desenvolvimento dessa plataforma, focando na criação de um sistema digital que se inspira no sucesso do Pix e em tecnologias de Moedas Digitais de Bancos Centrais. Os testes-piloto iniciais de interoperabilidade e segurança, envolvendo as maiores economias do bloco, estão programados para começar já em 2026.
OBSTÁCULOS NA INTEGRAÇÃO DAS ECONOMIAS
Apesar do avanço das negociações técnicas e do consenso político sobre a necessidade de desdolarização, o bloco enfrenta barreiras significativas no processo de integração financeira. As profundas diferenças nas estruturas econômicas e nos níveis de estabilidade macroeconômica entre os países-membros geram preocupações concretas a respeito de possíveis desequilíbrios futuros.
Um dos pontos de maior cautela é a crescente dominância chinesa no volume de comércio realizado dentro do próprio BRICS, o que alimenta receios de que uma dependência do dólar possa ser substituída por uma dependência do Yuan. A superação dessas tensões exige um esforço diplomático concentrado, especialmente no estabelecimento de um balanço de poder que seja aceitável para países como a Índia, que frequentemente apresenta divergências com Pequim.
A harmonização de políticas monetárias também é um desafio complexo, que demanda um alinhamento entre os bancos centrais do grupo em relação a temas como inflação e taxas de juros. Além disso, a instabilidade em economias específicas pode complicar a implementação e a confiança em um novo sistema de pagamentos.
O setor privado e os operadores do mercado global expressam resistência à mudança, principalmente por:
- Perda da flexibilidade operacional fornecida pela liquidez e segurança do dólar.
- Maior exposição ao risco cambial e à volatilidade das moedas de nações emergentes.
- Necessidade de reestruturar todos os contratos internacionais e sistemas de compliance.
REAÇÕES DE LÍDERES E O APOIO DO GOVERNO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido um dos principais defensores públicos do projeto, reafirmando em diversas ocasiões a importância de o bloco criar mecanismos próprios de comércio. Em agosto, o líder brasileiro enfatizou que a eliminação da conversão para o dólar nas trocas comerciais é um passo fundamental para o desenvolvimento soberano das nações.
A posição brasileira busca autonomia financeira e é insistentemente desvinculada de qualquer caráter anti-americano, focando na defesa do multilateralismo e da democracia comercial. A China, por sua vez, apoia ativamente a iniciativa e tem o Yuan como protagonista em cerca de 50% das transações atualmente realizadas entre os membros do BRICS.
Ainda no campo das reações, o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o chamado Banco do BRICS, tem sido um catalisador de ações concretas, financiando projetos em moedas locais. Somente em 2024, o NDB liberou um montante para projetos, reforçando a estratégia de diversificação e o uso de moedas alternativas ao dólar.
AÇÃO DO NOVO BANCO DE DESENVOLVIMENTO
Sob a liderança da presidente Dilma Rousseff, o NDB desempenha um papel crucial para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento em moedas nacionais. Essa ação fortalece a posição dos países, ao mesmo tempo que reduz a necessidade de emissão de dívidas lastreadas em dólar, diminuindo a exposição à política monetária dos Estados Unidos.
Essa linha de financiamento já beneficiou o país com a aprovação de uma carteira de 29 projetos, totalizando cerca de US$ 7 bilhões, focados em áreas estratégicas. Tais movimentos, juntamente com acordos bilaterais de pagamento em moedas locais, servem de base para a consolidação de um sistema financeiro interno robusto.
RESPOSTA À DOMINÂNCIA DO DÓLAR NAS RESERVAS
A necessidade de encontrar alternativas é corroborada por dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), que indicam uma redução de 5% nas reservas globais em dólar desde 2020. Essa volatilidade na moeda americana, combinada com o movimento de diversificação, abre caminho para que moedas como o Yuan ganhem progressivamente maior espaço nas transações e reservas internacionais.