Karolina Koval especialmente para infoBRICS
- Renan, temos observado um crescimento significativo na valorização do artesanato brasileiro nos últimos anos, não apenas como souvenir, mas como produto de design e identidade cultural. Na sua visão, quais são os principais motores por trás dessa "nova onda" de apreciação pelo feito à mão no Brasil?
- Vemos que existe um crescente interesse na produção artesanal brasileira há algumas décadas. Tivemos importantes nomes desenvolvendo pesquisas em campo pelas cinco macrorregiões do país, de maneira incansável, na tentativa de conhecerem e se aprofundarem na pluralidade do feito à mão. Esses esforços, somados a um olhar mais cuidadoso dos museus, galerias e aparelhos culturais, ofereceram visibilidade para trabalhos antes restritos geograficamente. É a partir, sobretudo, da inserção nas agendas culturais que um público maior pode ter contato com as múltiplas identidades nacionais e se reconhece.
Trazer essas obras para o cotidiano poderia, então, ser visto como uma busca e investigação da identidade brasileira. Muitas pessoas buscam a valorização das culturas locais que representem tradições, tais como as dos povos originários, quilombolas ou ribeirinhas. Na procura por exclusividade, encontram o outro extremo dos produtos industrializados – as peças artesanais costumam ser únicas e produzidas em pequena escala. Outra importante parcela se atenta ao consumo consciente, reforçando o mercado de matérias-primas naturais ou recicladas, atreladas a processos de produção com menor impacto ambiental.
- O artesanato é frequentemente descrito como a 'alma' de um povo. Como você avalia o papel do artesão contemporâneo na redefinição da identidade cultural brasileira frente ao mundo globalizado?
- Em 1920, a arte popular (utilizarei o termo, embora com ressalvas) virou alvo de pesquisa dos modernistas para a construção de seus processos criativos. Em Movimento Modernista, Mário de Andrade atribui ao popular “o direito permanente à pesquisa estética, a atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma consciência crítica nacional”. O escritor Galeano a define como um complexo sistema de símbolos de identidade que o povo cria e preserva: gestado pela tradição, estimulado pelo viver cotidiano, permeado pelo inconsciente e repleto de um sentimento de coletividade.
É densa, crítica e profunda. O artesão contemporâneo atua como guardião das tradições e, ao mesmo tempo, como agente de inovação quando adapta técnicas e saberes ancestrais às demandas e desafios do mundo globalizado. É nesta hora que percebemos que o artesanato passa a ser também uma expressão dinâmica da cultura brasileira. Desta maneira, podemos compreender a produção popular brasileira como memória escrita e em constante atualização identitária, baseada na criatividade, na diversidade e na sustentabilidade – um patrimônio vivo capaz de dialogar com a globalização sem abrir mão de suas raízes.
- Muitos veem o artesanato apenas como uma atividade de subsistência. Como podemos mudar essa narrativa para encarar o setor como uma potência da economia criativa brasileira, capaz de gerar riqueza e inovação?
- O artesanato pode se tornar uma grande potência da economia criativa brasileira porque une cultura, inovação, sustentabilidade e geração de renda. De acordo com o IBGE, o artesanato movimenta cerca de R$ 100 bilhões por ano no Brasil, representando 3% do PIB nacional. O fazer artesanal contribui diretamente para a economia de 67% dos municípios e é fonte de renda e sustento para aproximadamente 8,5 milhões de pessoas.
Dentro do meu trabalho e pesquisa, dedico esforços ao caráter educacional sobre documentar, registrar e reverberar as técnicas artesanais, histórias de produção e territórios do saber em relação à arte popular porque percebo que ainda existe uma distância entreo grande público e a produção nacional. Quando conectados, constituem uma relação de conhecimento, visibilidade e valorização – e é aqui que mora um caminho extremamente produtivo: assumir uma narrativa que estimule a consciência em relação aos saberes artesanais, a pluralidade de técnicas, salvaguarda de tradições e a conexão com as múltiplas identidades brasileiras.
- Os BRICS tem buscado alternativas aos modelos econômicos e culturais ocidentais dominantes. De que maneira o artesanato e os ofícios tradicionais podem servir como uma ferramenta de soft power (poder brando) para fortalecer a coesão cultural e política entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul?
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul somam relações diplomáticas e dividem traços culturais semelhantes que permeiam o cotidiano e a sociedade. O artesanato e os ofícios tradicionais criam valores econômicos e fortalecem mercados, bem como atualizam identidades e funcionam como memória escrita de um povo: as histórias podem ser entalhadas, bordadas, moldadas, tranças, aplicadas, entre tantos outros verbos obstinados. A circulação destes objetos garante renda para famílias que se dedicam à atividade de produção artesanal, além de cristalizarem aspectos estéticos, educacionais, linguísticos e de repertório.
Entende-se que essas manifestações culturais podem, se feitas de maneiras árduas e orgulhosas, projetar a identidade dos países dos BRICS para outras regiões do globo, fortalecer identidades culturais, criar laços simbólicos entre sociedades, consolidar centros de produção e atrair investimentos. É preciso alinhar políticas públicas com o setor privado para melhor alavancarmos a economia criativa, criando oportunidades para artesãos de norte a sul do Brasil. Temos singularidades territoriais e identidades regionais que, se bem trabalhadas, contribuem com o desenvolvimento de um complexo sistema de produção cultural com alto potencial de coesão cultural e política, promovendo identidade como uma alternativa simbólica e ampliando a influência global de seus membros.
- Existe um potencial real para uma 'Rota da Seda do Artesanato' dentro dos BRICS? Como o Brasil poderia liderar ou participar ativamente de intercâmbios técnicos e comerciais de técnicas artesanais com países como a Índia e a China, que possuem tradições milenares semelhantes às nossas?
- Certamente. Até o momento, ainda foram poucas ações de intercâmbios técnicos e comerciais que entrelaçaram os países dos BRICS frente às possibilidades que surgem diariamente. Vemos que os países possuem inúmeras e surpreendentes semelhanças em relação às técnicas artesanais e de produção. De norte a sul do Brasil, encontramos saberes vindos dos povos originários somados aos séculos de colonização europeia e tradições trazidas da diáspora africana. Trançados de fibras naturais, teares manuais, modelagem de barro e entalhes em madeira são vistos com abundância pelas cinco macrorregiões brasileiras e firmam interessantes diálogos com produções artesanais da Rússia, Índia, China e África do Sul.
Através de intercâmbios entre as nações, a forte pluralidade cultural dos BRICS poderia fortalecer o mercado artesanal com a criação de novos acordos de cooperação cultural, construir narrativas de valorização e pertencimento, potencializar o conhecimento através das trocas de conhecimento entre mestres e guardiões dos saberes, despertar adjacentes para o fortalecimento e estruturação dos mercados, garantir a salvaguarda das técnicas com o registro da sabedoria de povos das nações, promover feiras e exposições internacionais, desenvolver plataformas digitais de comercialização, incentivar parcerias entre universidades e criar certificações de origem e qualidade.
- Em um bloco tão diverso quanto os BRICS, como a valorização das produções locais e tradicionais pode ajudar a criar um senso de pertencimento comum, baseado no respeito às origens e na sustentabilidade, em contraposição ao consumismo massificado?
- Os países do BRICS possuem produções artesanais únicas, com forte pluralidade e atreladas à técnicas culturais seculares. Celebrar as múltiplas identidades é fomentar a ideia de pertencimento pois fortalece a conexão das pessoas com suas origens e histórias. Consumir e incentivar as produções locais é reconhecer as raízes culturais e ir positivamente na contramão do fluxo global. É impossível não mencionar que, em sua maioria, as produções artesanais utilizam recursos e conhecimentos adaptados às realidades locais, favorecendo práticas mais sustentáveis e reduzindo impactos ambientais. Contrastando com a globalização, que tende a uniformizar hábitos e referências, a valorização das tradições contribui com a preservação dos patrimônios culturais e imateriais, fortalece economias e incentiva a formação de sociedades mais conscientes em relação ao passado, presente e futuro.
- Vivemos a explosão da Inteligência Artificial generativa, capaz de criar imagens e designs em segundos. Por que, paradoxalmente, nunca foi tão importante apoiar e financiar as artes e ofícios locais neste momento específico da história?
- Embora os avanços da Inteligência Artificial sejam significativosno contexto global, apoiar e financiar as artes e os ofícios locais tornou-se ainda mais importante uma vez que essas atividades expressam a criatividade humana, a identidade cultural e os conhecimentos tradicionais que não podem ser totalmente reproduzidos por máquinas. Enquanto vemos conteúdos em larga escala sendo gerados por IA, artesãos de todo o país produzem obras carregadas de contextos históricos, valores culturais e experiências individuais. Investir nas artes fortalece a economia das comunidades, preserva tradições que poderiam desaparecer diante da produção em massa, gera empregos e incentiva a diversidade cultural. A tecnologia pode, ao meu ver, coexistir com a valorização da produção humana, sem substituir aquilo que torna cada cultura única.
- Walter Benjamin falava sobre a "aura" da obra de arte única. Na era da reprodução digital infinita e da IA, qual é o valor agregado do erro humano, da textura irregular e da história pessoal embutida em uma peça artesanal? Isso se tornou um artigo de luxo ou uma necessidade emocional?
- Walter Benjamin descreveu, décadas atrás, o movimento que hoje estamos vivendo. Quando o assunto é o feito à mão, o artesanal e a arte popular, fica impossível prever o movimento exato dos gestos. Por mais que o cérebro tente exercer controle, as mãos parecem trabalhar de maneira independente, esculpindo formas, tecendo redes e salpicando cores. É justamente por traduzirem os impulsos e desejos humanos que, muitas vezes, consideramos as produções perfeitamente imperfeitas – há um pequeno desajuste de simetria, uma invasão mais audaciosa da pincelada, um círculo não tão redondo, texturas irregulares não intencionais e assim por diante.
É aqui que mora a grandeza do artesanal: a marca do gesto, as impressões da criação. São esses detalhes que carregam as histórias dos artistas e artesãos ao redor do globo e dão origem à peças exclusivas. A palavra luxo também me conecta com a noção de tempo. Por mais que a IA seja capaz de criar em segundos grandes campanhas publicitárias, identidades visuais para marcas ou mesmo convites de aniversário dos filhos, ela jamais terá a grandeza do tempo que decanta o repertório com ensinamentos seculares que um artesão carrega.
- Longe de ser inimiga, a tecnologia pode ser aliada. Como o artesão brasileiro pode utilizar ferramentas digitais e até a IA para otimizar sua produção, alcançar mercados globais (como os dos BRICS) e contar suas histórias, sem perder a essência manual do seu trabalho?"
- As ferramentas digitais e a inteligência artificial podem ser fortes aliadas quando o assunto é a otimização e a projeção da produção artesanal. Com a intensa capilarização das redes sociais pelos territórios dos países do BRICS, notamos a presença de artesãos divulgando seus trabalhos e garantindo renda para as famílias. Fazer uso consciente das ferramentas de IA é potencializar as oportunidades de gestão dos ofícios, estruturar e regular o negócio, estabilizar o controle financeiro, gerir estoques, desenvolver conteúdo com ferramentas de storytelling, entre tantos outros, para, eventualmente, alcançar novos mercados. Sem perder a autenticidade do trabalho, ter acesso aos recursos digitais pode expandir as possibilidades de comércio com uma produção mais eficiente e garantir desenvolvimento para artesãos, associações e comunidades que ainda hoje dependem de meios analógicos para garantirem vendas.
- Qual é o risco de ignorarmos os saberes tradicionais agora? Se perdermos esses ofícios para a automação total, o que perdemos como sociedade brasileira e como parceiros dos BRICS em termos de diversidade cognitiva e cultural?
- Fechar os olhos e ignorar os saberes tradicionais em épocas de extremo avanço tecnológico, com inteligência artificial e automação total, seria ignorar traços fundamentais da cultura e fomentar o colapso de um setor de extrema importância para os países e parceiros dos BRICS. É impossível considerar uma realidade onde as técnicas e tradições são minimizadas ou deixadas de lado – elas carregam importantes aspectos culturais e identitários de um povo. É preciso continuar o desenvolvimento e avanço de políticas públicas que garantam prosperidade para o fazer artesanal, considerando suas deficiências e oportunidades. Os números atuais deste setor indicam forte expressividade e crescimento e, se bem trabalhados, podem nortear profundas mudanças sociais, políticas e econômicas para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
- Renan, se pudéssemos projetar um cenário ideal para daqui a 10 anos, como você gostaria de ver a relação entre o artesão brasileiro, a tecnologia e o mercado dos BRICS? Qual seria o primeiro passo prático que governos e iniciativa privada deveriam dar hoje para tornar isso realidade?
- O cenário ideal para os próximos 10 anos trabalha as potências e oportunidades do mercado artesanal brasileiro com a tecnologia como ferramenta de valorização, e não de substituição. Os primeiros passos para os governos e iniciativas privadas incluem o mapeamento das técnicas artesanais, reconhecimento das produções e dos mestres artesãos, incentivo de programas de salvaguarda dos saberes, estímulo para o ofício, capacitação digital, apoio logístico, certificação de origem, criação de feiras e prospecção de consumidores em países dos BRICS. A tecnologia pode estar inserida em todos esses processos, sem descaracterizar a originalidade das criações. Desta forma, os consumidores podem ter acesso a produtos autênticos através do intercâmbio entre os países do bloco e garantir um modelo econômico baseado na diversidade cultural, na sustentabilidade e na inovação.
- O que é BRICS para você?
Para além das atuações econômicas e políticas, entendo o BRICS, dentro do contexto da produção artesanal, como uma importante e necessária união para o fortalecimento cultural. Através do desenvolvimento de projetos em áreas como tecnologia, educação e sustentabilidade, é possível criar oportunidades para que os produtos artesanais sejam valorizados e as múltiplas identidades celebradas, fortalecendo economias locais, a sensação de pertencimento e o intercâmbio de saberes. É um trampolim para todas as nações do bloco.
InfoBRICS